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16/07/24
A vida em tons de azul
Conheça as “blue zones”, regiões do mundo onde as pessoas vivem mais graças a um estilo de vida ativo, alimentação saudável, contato com a natureza e dia a dia sempre cercado de amigos e da família.
Tempo de leitura: 9 minutos
Por Fabiano Mazzei
Em meados dos anos 2000, o educador e jornalista norte-americano Dan Buettner iniciou uma pesquisa para entender porquê, em determinadas regiões do planeta, as pessoas viviam por mais tempo. Ele detectou que em Okinawa, no Japão; Sardenha, Itália; Ikaria, Grécia; Nicoya, na Costa Rica; e Loma Linda, nos Estados Unidos, a população com mais de 80 anos ultrapassava em muito a média global. A estes locais, Buettner batizou de “Blue Zones”.
O estudo, que durou 15 anos, rendeu um livro, “The Blue Zones: Secrets for Living Longer” (2020), e um documentário de bastante sucesso no canal de streaming Netflix: “Live to 100: Secrets of the Blue Zones”, lançado em 2023. Em ambos, o pesquisador detalha os hábitos e o estilo de vida responsáveis por essa longevidade.
O autor, que é explorador da National Geographic, iniciou sua pesquisa quando visitou o arquipélago japonês para escrever um artigo sobre a população de idosos de Okinawa. A partir disso, ele passou a viajar o mundo entrevistando pessoas e analisando dados demográficos para identificar novas ‘blue zones’ e determinar quais comportamentos estavam prolongando a vida das pessoas.

Uma dessas zonas azuis é a Sardenha, na Itália, apontada em artigo assinado pelos pesquisadores Gianni Pes e Michel Poulain, no Journal of Experimental Gerontology, como a região com a maior concentração de homens centenários do mundo. Um dos motivos seria genético: seus habitantes carregam o marcador M26, ligado à longevidade e, devido ao isolamento da ilha, ainda bastante concentrado por ali. Resultado: 10 vezes mais centenários per capita do que nos Estados Unidos.
Mas a questão não é apenas o isolamento: a população desta ilha no Mar Mediterrâneo tem um estilo de vida tradicional e bastante saudável também. Os habitantes ainda caçam, pescam e colhem seus alimentos, vivem cercados de amigos e familiares, se divertem e, claro, bebem vinho.
A dieta na Sardenha é basicamente formada por pão integral, hortaliças, frutas, peixes e queijo de cabra, que é rico em Ômega-3. A carne vermelha fica mais restrita aos finais de semana e datas especiais. Os sardos gostam de caminhar: uma média diária de 8 km ou mais, o que ajuda na saúde cardiovascular, dos ossos e músculos. Eles também cultivam fortes laços familiares, celebram os mais velhos, são conhecidos pelo bom humor e consomem vinho – de uvas Grenache – moderadamente. Tudo isso ajuda a combater a depressão, o estresse e outras doenças psicossomáticas.
Não muito longe dali, em Ikaria, Grécia, o fenômeno se repete. Nesta pequena ilha do Mar Egeu, as pessoas têm passado facilmente dos 90 anos, repletas de boa saúde. A justificativa vem de uma combinação de fatores: gastronomia mediterrânea a base de alimentos frescos, do mar e azeite de oliva; preferem leite de cabra, com mais potássio e hormônios antiestresse; vida ativa, com caminhadas entre os vilarejos que ocupam a região mais montanhosa; e o hábito da soneca no meio da tarde. Segundo a medicina, pessoas que fazem uma pausa no meio do dia têm 35% a menos de chance de desenvolver doenças cardíacas.


Alimentação a base de frutos do mar e soneca a tarde aumentam a qualidade de vida da população das ‘blue zones’ que ficam próximas ao Mediterrâneo. Créditos: Shutterstock.
09 HÁBITOS DAS BLUE ZONES
Em Okinawa, Loma Linda e Nicoya, a soma destes aspectos – dieta, atividade física, vínculo social e propósito de vida – também ajudam a compreender as razões para que, nestes lugares, as pessoas vivam mais.
Em seu estudo, Dan Buettner elencou nove hábitos destas comunidades que contribuem para a longevidade. Segundo ele, se bem aplicados no dia a dia, podem ajudar a elevar a expectativa de vida média em até 12 anos. São eles:
1. Mova-se naturalmente.
As pessoas que vivem mais no mundo não correm maratonas ou se acabam em treinos dentro de academias. Ao contrário, elas vivem em ambientes que estimulam atividades físicas de maneira mais natural. Cuidam de tarefas domésticas, como limpar o jardim, sem uso de ferramentas mecânicas, por exemplo;
2. Tenha um propósito.
Em Okinawa, é chamado de “Ikigai”; na Costa Rica, de “plan de vida”. Para ambos, é o motivo que nos leva a acordar todas as manhãs. Não vale trabalho: tem de ser algo que agrega no aspecto mais humano. Apenas isso seria capaz de acrescentar cerca de sete anos na expectativa de vida das pessoas;
3. Desacelere!
O estresse é uma praga global e afeta até quem vive nas zonas azuis. O que eles fazem de diferente para não se sentirem tão atingidos? Desaceleram. Em Ikaria, tiram uma soneca a tarde; em Loma Linda, rezam; os sardos bebem vinho no happy hour. Fundamental para diminuir o risco de doenças crônicas na velhice;
4. A regra dos 80%.
No Japão, o mantra “Hara Hachi Bu”, difundido há mais de 2.500 anos, orienta para que as pessoas parem de comer durante uma refeição quando estiverem 80% saciados. Os 20% restantes podem fazer a diferença na hora de ganhar ou perder peso. Nas ‘blue zones’, as pessoas fazem sua última refeição no final da tarde ou início da noite – e não comem mais nada até a manhã seguinte;
5. Dieta vegetal.
Feijões e grãos em geral são a base da alimentação da maioria dos centenários. Carne – em geral, de porco – é consumida até 5 vezes por mês apenas. E sempre em porções modestas;
6. Vinho, sempre.
Em todas as zonas azuis, as pessoas bebem vinho moderada e regularmente. Isso significa de uma a duas taças diárias, ao lado de amigos ou acompanhando as refeições. E não vale passar a semana sem beber, para acelerar no sábado: não é assim que funciona;
7. Pertencimento.
Nas pesquisas de Buettner, ele notou a importância da fé como fator de pertencimento a um tecido social. Tanto faz a religião: participar de rituais de fé regulamente pode estender a vida entre 4 e 14 anos;
8. Tudo em família.
Centenários convivem mais com suas famílias, moram junto ou próximo a elas, participam de agenda social em comum e ajudam nos cuidados com as crianças e jovens. Isolamento, jamais;
9. Tribo certa.
Sedentarismo, alcoolismo, obesidade e solidão podem ser causados por influência do grupo social. Escolher a tribo certa, com comportamentos que buscam mais qualidade de vida e cultivam hábitos saudáveis, é essencial para a longevidade.

Para Diego Felix Miguel, presidente do departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG-SP), em São Paulo, obter um envelhecimento saudável vai muito além do binômio saúde-doença.
“Existem aspectos socioculturais e climáticos que interferem neste processo”, diz. O especialista cita condições de acesso a alimentação adequada, rotina de trabalho que considere o descanso necessário, ambiente social mais solidário e possibilidade de se viver em regiões com temperaturas mais amenas, sem extremos.
“As pessoas já estão vivendo mais, graças a evolução da medicina, acesso a informação e sistema de saúde pública mais abrangente. A questão, agora, é como avançar na idade com mais qualidade”, afirma. Segundo o Censo de 2022 (IBGE), a expectativa de vida no Brasil é de 75,5 anos – cerca de dois anos a mais do que em 2010.
Os vínculos sociais, destaca Diego, são essenciais neste processo. Isso significa cultivar relações interpessoais fora do ambiente de trabalho, por exemplo. “Quando a pessoa se aposenta, ela precisará de uma outra rede de suporte, um outro grupo social para pertencer e se manter ativa e acolhida do ponto de vista emocional. Isso precisa ser construído ao longo do tempo”, avalia.
Por fim, ele menciona que a relação com a natureza nas “blue zones” indica a importância do tema para se viver melhor. “Não apenas porque permite acesso a alimentos mais frescos ou ar mais puro, mas porque a natureza estimula um aspecto de religiosidade, de interdependência entre os seres e do cuidado que temos que ter uns com os outros.”